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Trabalho em altura não é esporte PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
04-Dez-2009
Embora a dimensão física da altura esteja presente em ambas, trabalho em altura e escalada em geral pouco tem em comum.

Ambas podem coexistir em um mesmo ser, e como o Dr. Jekyll e Mr. Hyde não podem manifestar-se ao mesmo tempo em uma pessoa.

O ser Escalador é um esportista  que  muitas vezes está  buscando seu limite. As regras do seu desempenho são pessoais e éticas, baseadas nas regras de uma comunidade de esportistas, autorregulada e sem nenhuma (ainda bem) regulamentação governamental.

Seu equipamento é muito seguro, resistente e leve. Possibilita uma série de técnicas de deslocamento e ancoragem baseadas em peças mínimas, de alta tecnologia e de extrema confiabilidade.

O ser Trabalhador em altura não é um esportista - é um profissional pautado pelo limite estabelecido nas diversas normas de trabalho que o obrigam a se manter em uma zona segura de desempenho, mesmo em locais de alta exposição.

Embora não seja regra geral, os equipamentos para trabalho em altura, EPIs com CA ou EPC sem CA, possuem algumas das características acima e em muitos casos são equipamentos derivados de um produto originalmente projetado para uso esportivo. Mesmo em peças projetadas exclusivamente para trabalho em altura, procurando bem no seu desenho encontraremos detalhes originados em peças esportivas.

Em várias oportunidades tenho visto esportistas trabalhadores ou trabalhadores esportistas, não sei direito, citar a altura e a semelhança de técnicas e equipamentos como elos comuns ao esportista durante o final de semana e ao trabalhador durante os dias laboráveis. Neste aspecto, nunca vi gente mais equivocada.

Parece natural a migração do ser da montanha para o trabalho em altura. Como toda migração ela é possível mas não é fácil.

Temos assistido à proliferação de empresas de trabalho em altura como nunca se viu, gente boa da montanha que com uma idéia na cabeça, uma firma aberta, um site e alguns contatos vão tentando abrir caminho na direção da digna sobrevivência como trabalhador em altura.

Ao mesmo tempo tenho visto o desaparecimento de várias destas empresas que, ao descobrirem que a complexidade extrema deste ramo de atividade não está na altura de onde se trabalha e sim em uma série de exigências legais e técnicas praticadas pelos órgãos competentes do estado e pelos contratantes sérios deste tipo de serviço.

O esporte vertical de montanha e o trabalho em altura são questões diametralmente opostas que, paradoxalmente, possuem pontos comuns. Acredito que o mais importante destes pontos não está na altura nem no equipamento, está na pessoa do esportista/trabalhador e no papel que ele está desempenhando momentaneamente.

Aqui,neste ponto, quase todos nós temos alguma esquizofrenia.

Escalando, pensamos em segurança, mas aceitamos cair, sem muita preocupação, 4, 5 ou 6 metros caso escorreguemos perto de uma ancoragem, coisa impensável em um trabalho vertical. Escalamos com uma cadeirinha mínima (segura, é claro) mas sem um peitoral, o que arrepiaria qualquer técnico de segurança do trabalho.

Alguns consideram normal escalar com roupas mínimas, uma bermuda, e sem capacete. No trabalho em altura, sem bota de segurança, macacão, capacete, óculos de segurança, protetor de ouvido, máscara e sei lá quantas exigências mais não se passa ou não se deveria passar da porta.

Para ir escalar na montanha ninguém pede exame médico (só faltava!) mas em um trabalho vertical o ASO, Atestado de Saúde Ocupacional ESPECÍFICO para trabalho em altura inclui até teste clínico para laberintite.

O empreendedor nesta área deve estar muito atento para caminhar dentro da legalidade do trabalho em altura e de suas complexas exigências, em última análise, para minimizar o risco de direta ou indiretamente ser responsável por um acidente de qualquer natureza. Ou, em uma visão mais abrangente, evitando assim prejudicar com seus erros públicos a imagem de outros profissionais desta área.

O contratante, que muitas vezes busca o melhor preço,  também deve procurar fazer sua parte, exigindo com rigor que todas as solicitações legais (trabalhistas, segurança do trabalho, etc.) sejam atendidas fielmente e somente depois procurar a melhor relação custo/benefício no preço do serviço e nas diferentes soluções técnicas disponíveis para seu problema.


Marcelo Krings



Atualizado em ( 07-Dez-2009 )
 
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