Embora a dimensão física da altura esteja presente em
ambas, trabalho em altura e escalada em geral pouco tem em comum.
Ambas
podem coexistir em um mesmo ser, e como o Dr. Jekyll e Mr. Hyde não podem
manifestar-se ao mesmo tempo em uma pessoa.
O ser Escalador é um esportista que muitas vezes
está buscando seu limite. As regras do seu desempenho são pessoais e éticas,
baseadas nas regras de uma comunidade de esportistas, autorregulada e sem
nenhuma (ainda bem) regulamentação governamental.
Seu equipamento é muito
seguro, resistente e leve. Possibilita uma série de técnicas de deslocamento e
ancoragem baseadas em peças mínimas, de alta tecnologia e de extrema
confiabilidade.
O ser Trabalhador em altura não é um esportista - é um
profissional pautado pelo limite estabelecido nas diversas normas de trabalho
que o obrigam a se manter em uma zona segura de desempenho, mesmo em locais de
alta exposição.
Embora não seja regra geral, os equipamentos
para trabalho em altura, EPIs com CA ou EPC sem CA, possuem algumas das
características acima e em muitos casos são equipamentos derivados de um produto
originalmente projetado para uso esportivo. Mesmo em peças projetadas
exclusivamente para trabalho em altura, procurando bem no seu desenho
encontraremos detalhes originados em peças esportivas.
Em várias
oportunidades tenho visto esportistas trabalhadores ou trabalhadores
esportistas, não sei direito, citar a altura e a semelhança de técnicas e
equipamentos como elos comuns ao esportista durante o final de semana e ao
trabalhador durante os dias laboráveis. Neste aspecto, nunca vi gente mais
equivocada.
Parece natural a migração do ser da montanha para o trabalho
em altura. Como toda migração ela é possível mas não é fácil.
Temos
assistido à proliferação de empresas de trabalho em altura como nunca se viu,
gente boa da montanha que com uma idéia na cabeça, uma firma aberta, um site e
alguns contatos vão tentando abrir caminho na direção da digna sobrevivência
como trabalhador em altura.
Ao mesmo tempo tenho visto o desaparecimento
de várias destas empresas que, ao descobrirem que a complexidade extrema deste
ramo de atividade não está na altura de onde se trabalha e sim em uma série de
exigências legais e técnicas praticadas pelos órgãos competentes do estado e
pelos contratantes sérios deste tipo de serviço.
O esporte vertical de
montanha e o trabalho em altura são questões diametralmente opostas que,
paradoxalmente, possuem pontos comuns. Acredito que o mais importante destes
pontos não está na altura nem no equipamento, está na pessoa do
esportista/trabalhador e no papel que ele está desempenhando
momentaneamente.
Aqui,neste ponto, quase todos nós temos alguma
esquizofrenia.
Escalando, pensamos em segurança, mas aceitamos cair, sem
muita preocupação, 4, 5 ou 6 metros caso escorreguemos perto de uma ancoragem,
coisa impensável em um trabalho vertical. Escalamos com uma cadeirinha mínima
(segura, é claro) mas sem um peitoral, o que arrepiaria qualquer técnico de
segurança do trabalho.
Alguns consideram normal escalar com roupas
mínimas, uma bermuda, e sem capacete. No trabalho em altura, sem bota de
segurança, macacão, capacete, óculos de segurança, protetor de ouvido, máscara e
sei lá quantas exigências mais não se passa ou não se deveria passar da
porta.
Para ir escalar na montanha ninguém pede exame médico (só
faltava!) mas em um trabalho vertical o ASO, Atestado de Saúde Ocupacional
ESPECÍFICO para trabalho em altura inclui até teste clínico para
laberintite.
O empreendedor nesta área deve estar muito atento para
caminhar dentro da legalidade do trabalho em altura e de suas complexas
exigências, em última análise, para minimizar o risco de direta ou indiretamente
ser responsável por um acidente de qualquer natureza. Ou, em uma visão mais
abrangente, evitando assim prejudicar com seus erros públicos a imagem de outros
profissionais desta área.
O contratante, que muitas vezes busca o melhor
preço, também deve procurar fazer sua parte, exigindo com rigor que todas as
solicitações legais (trabalhistas, segurança do trabalho, etc.) sejam atendidas
fielmente e somente depois procurar a melhor relação custo/benefício no preço do
serviço e nas diferentes soluções técnicas disponíveis para seu
problema.
Marcelo Krings
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